Rente

Os trabalhos de Fabio Flaks instalam-se sem alarde no espaço. Pode-se reconhecer de imediato os objetos que representam: caixas, garrafas e amplificadores. Mas é no estreito espaço da proximidade e no conforto – rapidamente desconstruído – do reconhecimento que eles operam.

Os quatro amplificadores, que surgem num desenho sem espessura, formam um paredão que assalta o público frontalmente e reverbera o silêncio do espaço. O ambiente pulsa enquanto o olhar desliza pelo grafite da trama xadrez desses pôsteres feitos um a um. Algo entre o anúncio publicitário com logomarcas conhecidas e o traço empenhado do artista.

Do outro lado, três garrafas pela metade estão suspensas no ar. As pinturas da série Festa! são tão verossímeis quanto um quadro acadêmico. A pintura confunde-se com a fotografia (o fundo branco, infinito, confere à imagem a aparência de uma foto de estúdio a ser manipulada no computador) apontando inevitavelmente a inutilidade de lançar-se a uma árdua tarefa manual, que poderia ser desempenhada por um aparato mecânico. Não há defesa da pintura propriamente, ela está lá, bem feita, realista mas atestando sua absoluta improdutividade.

Numa de suas célebres frases, Andy Warhol dizia algo assim: se você quiser saber quem eu sou, olhe para a superfície das minhas pinturas. Tal correspondência entre a essência (o ser) e a aparência, conceitos usualmente opostos pela tradição cartesiana, também engendra os trabalhos apresentados na exposição Rente. Eles também acontecem na superfície e não há nada além da aparência. Nenhuma verdade oculta, essência escondida ou possibilidade de transcendência. De tão familiar, aquilo que é mostrado torna-se invisível. O que resta dessa operação, no entanto, é capaz de reconduzir o olhar para o campo propriamente estético.

Thais Rivitti

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